Boas Intenções | Sobre o quanto somos quebrados por dentro


[dropcap]S[/dropcap]e refletirmos profundamente sobre nossas ações, surge uma inquietante questão: o quanto somos quebrados por dentro. Em Boas Intenções os refugiados são apenas pano de fundo para um estudo de personagem que acaba se tornando muito comum em nossa sociedade contemporânea cheia de desigualdades a nível global: os que ajudam os mais necessitados não para se sentirem bem, mas que precisam ajudar para não se sentirem imprestáveis.

Essa é a história de Isabelle (Agnès Jaoui), uma mulher que vive para ajudar os mais necessitados. Ela conheceu seu marido em uma missão da ONU na guerra da Bósnia e agora com os filhos adolescentes os refugiados em Paris viram um prato cheio para essa professora de francês que ensina seu idioma aprendido na prática através de um programa social da escola onde trabalha. O problema que o filme mostra é o quão obcecada Isabelle está em ajudar essas pessoas e jogar a culpa da miséria alheia nos outros, enquanto isso é a ausente da família, de seus filhos e marido. Quando ela está presente é para falar apenas de seus alunos e de suas tarefas extra-curriculares para ajudá-los, momento onde geralmente ela perde as estribeiras ao descobrir que ninguém mais está realmente preocupado com isso.

Este é um filme bem humorado e leve sobre um tema conturbado, mas que aceita pontos de vista demais para ser relevante como comentário social, mas que pela diversidade de personagens estereotipados já nos diz algo, embora esse algo não se traduza em palavras. Porém, a atriz Agnès Jaoui traduz muito bem o que é estar preso em uma arapuca sentimental montada desde o berço por falta de carinho, revelando uma Isabelle cada vez mais exausta da luta diária contra a apatia, conformismo ou alienação das outras pessoas.

A narrativa do filme poderia se tornar episódica não fosse o dinamismo com que o diretor Gilles Legrand escolheu contar todos os passos independentes que o roteiro escrito por ele e por Léonore Confino utilizam como fonte de humor e de confrontação da professora e os fantasmas de sua existência. O ritmo e a ausência das pessoas queridas de sua vida, principalmente a avó, facilita entender que ela está vivendo o pesadelo que escolheu para si, mas o mais sintomático no longa é nunca conseguirmos vislumbrar uma camada que seja a mais de complexidade de Isabelle. A vemos na história toda, parodiando o próprio filme, como um clichê ambulante, sem nunca conseguirmos ir mais fundo em sua psiquê. Faltam símbolos em uma experiência com muitos diálogos e pouca visão.

Ao mesmo tempo há um fiapo de comentário social, como a forma com que a burguesia mercantiliza até a caridade através de associações anônimas e convenientes, que servem mais para se isolar dos problemas do mundo do que para tornar qualquer tipo de ajuda eficiente, em uma versão individualista de quando países ricos jorravam milhões para a África sem qualquer resultado notável. Da mesma forma chega a ser minimamente curioso notar como o comportamento dos que eram refugiados na década passada e que hoje se transformam na burguesia, como o marido de Isabelle.

De qualquer forma, Boas Intenções, querendo ou não, se torna quase que politicamente incorreto, pois acaba tentando nos divertir às custas da mazela do mundo. A própria Isabelle não ficaria muito feliz se pudesse assisti-la, julgando este ser apenas uma diversão burguesa. E quando analisarmos profundamente o significado do filme entenderemos o quão quebrado como sociedade nós estamos nos tornando.


“Les Bonnes Intentions” (Fra, 2018), escrito por Léonore Confino, Gilles Legrand, dirigido por Gilles Legrand, com Agnès Jaoui, Alban Ivanov, Claire Sermonne


Trailer – Boas Intenções

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