Boicote | Sobre Liberdades

Boicote é icônico para entendermos os contrastes que estão acontecendo sobre a liberdade de expressão. Não digo isso em solo brasileiro, pois isso não existe de fato, mas em solo americano, onde ele é uma das bases mais sólidas da constituição. Os fundadores do país acreditavam que não se criam leis sobre algo que já é natural de todo ser humano. Isso inclui a liberdade de se expressar, sob a qual não deverá existir lei que a regule. E isso quer dizer, sim, mesmo que isso seja rotulado por alguns grupos como discurso de ódio.

Porém, o filme em questão fala mais sobre a posição política de se expressar com base em dólares: o boicote. Se recusar a fazer negócios com determinado grupo ou empresa porque você discorda do que eles estão fazendo. Com base nisso foi criado o boicote a Israel durante os constantes ataques à vida civil dos palestinos no território ocupado.

É aí que surge o tema do filme, que fala sobre uma lei proibindo esse boicote, mesmo que a constituição e a tradição considerem o boicote uma ferramenta legítima de posicionamento e expressão política. O melhor exemplo que o filme encontra: racismo. Ele usa como exemplo o boicote aos ônibus na época da segregação, quando negros ficaram um ano inteiro sem usar os ônibus para se locomover e finalmente conseguiram fazer com que a lei de segregação no transporte acabasse.

Para focar no combate à lei presente, o filme foca em três indivíduos que tiveram seu trabalho afetado. Uma fonoaudióloga palestina, um jornalista independente americano e um consultor de prisioneiros de família judia, uma sacada de mestre para tornar o debate mais equilibrado. E todos os três processaram seus estados responsáveis por criar essa lei que determina que todo contrato assinado deve constar que a pessoa não boicotará Israel. E, sim, a lei cita especificamente Israel.

Essa lei se espalhou por vários estados através de um modelo que foi compilado justamente para isso por uma organização pouco conhecida e que se reúne duas vezes ao ano de portas fechadas. Suspeito? Teoria da conspiração o suficiente para você? E que tal o jornalista investigativo palestino que descobre o mecanismo pelo qual Israel envia recursos a organizações sionistas para os EUA usando uma empresa privada, o que curiosamente faz lembrar muito a campanha de Trump sendo alavancada por uma empresa privada, a Cambridge Analytics?

O documentário de Julia Bacha, uma brasileira, explica e explora esse assunto abordando todos os lados. Ele vai muito além do que se esperaria de um filme de pouco mais de uma hora, pois consegue tocar em vários assuntos periféricos com uma didática e rapidez invejáveis. E não é um assunto fácil, cheio de tecnicidades e palavras difíceis, mas tenho certeza que alcançável pelo cinéfilo mais afeito a pensar. Pense como se fosse um A Grande Aposta, o filme de Adam McKay sobre a crise de 2008, só que mais conciso e com menos analogias. Além de ser um documentário.

Porém, o filme também é um pouco piegas. Julia demonstra não ter muito jeito para lidar com pessoas diante das câmeras e a parte mais família do longa conta com alguns momentos de pura manipulação, com direito a trilha sonora dramática e testemunhos em família embaraçosos. Talvez fosse melhor que a diretora esquecesse esse teor humano em seus próximos trabalhos, pois além de prejudicar o filme como um todo sobraria mais tempo para as tecnicidades, onde, aí sim, ela domina completamente o assunto. Um tanto paradoxal, pois focar na parte técnica dá mais credibilidade e consequentemente pode ajudar mais pessoas a conseguir justiça.


“Boycott” (EUA, 2021), dirigido por Julia Bacha.


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