Caixa Preta | Não vai tão longe

Eu gosto de cinema experimental porque me permite passar pelas sensações mais diversas em um mesmo filme e entender um pouco de mim mesmo em pouco tempo. E graças à Caixa Preta essa sessão teve um pouco disso. A montagem não é caótica, é da temática da negritude, o que é brega e chega atrasado, mas é um bom pano de fundo para o caos que vivemos após o movimento “Black Lives Matter” e suas vertentes paralelas pelo mundo.

Filmes de percussão também nos entregam a oportunidade de se livrar de algumas amarras narrativas e enxergar até onde vai o idealizador. Nesse caso são três idealizadores responsáveis por essa colagem: Saskia, Bernardo Oliveira e Negro Leo. E para onde eles vão: não muito longe. O revolucionário da película se torna o mesmo berro de dor e angústia de tantos cineastas que compartilham a etnia e as mesmas ideias “originais” a respeito de história e desenvolvimento de uma identidade coletiva.

Mas o filme se destaca por um aspecto curioso: ele possui um volume altíssimo. Antes da sessão os cineastas fizeram um teste de amplitude da projeção e deixaram seus espectadores surdos, com o volume mais alto que você irá testemunhar dentro de uma sala de cinema. O nível é enlouquecedor a ponto de especularmos se trata-se de um teste de resistência, e quem sair antes do filme acabar ganha um prêmio.

Eu falhei. Não saí da sala, pois queria ver mais. Mas não ouvir. Tapei meus ouvidos. E hoje posso escrever isto deste filme: ao tapar meus ouvidos ele ficou muito melhor. É libertador poder se livrar deste áudio opressivo que fez parte dos últimos anos neste triste episódio da espécie humana. Estamos colhendo os frutos ainda. Então recomendo tapar os ouvidos e olhar para o outro lado quando conveniente. Fica a dica para se libertar deste novo cinema “livre”.


“Caixa Preta” (São Paulo e Rio de Janeiro/BR), dirigido por Saskia e Bernardo Oliveira


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