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Medida Provisória | Crítica do Filme | CinemAqui

Medida Provisória | Obrigatório, mesmo com seus defeitos

Medida Provisória é um trabalho apaixonado, relevante, importante e imprescindível. É preciso encarar o filme e escutar o que está sendo dito por ele, discutir o assunto e sentir suas dores. A inventividade de suas ideias é de uma realidade dolorosa e cruelmente verdadeira. Por isso tudo, apontar seus defeitos se torna um trabalho ainda mais angustiante.

O problema disso é que não são poucos. Mas é preciso estender isso para uma outra discussão relacionada à pertinência da obra diante de seus escorregões. Até onde uma coisa pode sobrepujar a outra? Até onde um filme tecnicamente ruim não deixa que isso atrapalhe sua importância? Para onde devemos olhar diante dessa dicotomia?

Existe ainda um receio real da mensagem chegar atrapalhada. As críticas à qualidade do filme se enroscarem na capacidade do filme de carregar uma das mensagens mais importantes que o cinema irá levar ao seu público em 2022. Medida Provisória precisa ser analisado, mas precisa ser celebrado independente de qualquer problema seu.

Não importando muito os problemas expostos pela óbvia falta de experiência do diretor estreante Lázaro Ramos. Talvez até um tom teatral e que atrapalha o andamento de seu filme, mas, de qualquer jeito, uma mistura entre momentos incrível e situações quase vexatórias.

O “tom teatral” talvez venha da origem da história, a peça Namíbia, não!, de Aldri Assunção. Nela, dois homens, André e Antônio, ficam presos dentro de casa quando o governo dos Brasil, do então longínquo ano de 2016 (a peça é de 2009), cria uma lei que permite que o governo capture os negros e os envie de volta para a África. Mas por essa lei não ultrapassar uma outra, sobre invasão domiciliar, quem ficar em casa, não poderá ser enviado. O que faz com que a dupla comece a sofrer o isolamento enquanto discute a situação social e econômica do país.

O filme de Ramos vai um pouco além disso. O roteiro é escrito por ele mesmo em parceria com o autor da peça e ainda do experiente Lusa Silvestre, que assinou textos como o de Estômago, O Roubo da Taça e Mundo Cão. Antônio é agora vivido por Alfred Enoch e André por Seu Jorge, ambos recebem a companhia de Capitu (Taís Araújo), que acaba sendo “pega” por essa Medida Provisória e precisa se esconder em um lugar criativamente batizado de “Afro Bunker”.

Medida Provisória | Obrigatório, mesmo com seus defeitos

A dinâmica do filme então se divide entre essas duas linhas de ação principais, com ainda um terceiro arco acompanhando a funcionária pública Isabel (Adriana Esteves), responsável pelo registro e envio de negros na cidade (ou bairro, isso não fica claro). O problema mais é que nenhum dos três lados chega tão longe quanto a ideia principal do filme chega. As discussões importantes estão lá, as verdades esfregadas nas caras e a vontade enorme de discutir o mundo, tudo está por ali, mas nunca com a força que mereceria.

O roteiro escrito a seis mãos é falho e cheio de diálogos expositivos, não acredita na inteligência do espectador e apela para um didatismo que atrapalha a maturidade do filme. A direção de Ramos segue o mesmo rumo. Mesmo empolgando em alguns momentos pela sutileza, tropeça nos próprios pés ao apelar para situações intelectualmente infantilizadas e chega até a se perder em um lirismo meio bobo que tira a seriedade do filme.

Em certo momento, sem absolutamente nenhuma preparação do roteiro, o personagem vivido pelo rapper Emicida tira a arma de um de seus companheiros e entrega para ele um livro, que continua sendo afagado como a arma estava já sendo. A analogia é importante, imprescindível e poderosa, mas o resultado visual é uma enorme vergonha.

Medida Provisória segue nessa toada. Grandes momentos, como o de um personagem se pintando de branco, entrelaçado com ideias que não chegam a lugar nenhum, como o final à lá Onze Homens e um Segredo. O resultado é desequilibrado e perigoso para a própria obra.

Será que seus defeitos irão prejudicar o entendimento da mensagem? Talvez sim. Talvez a vontade de divulgar essas ideias e dores ultrapasse o senso crítico (que é o que eu espero) e o filme chegue exatamente onde deve chegar. O futuro irá se encarregar dessas respostas, mas nenhuma delas irá tirar de Medida Provisória sua paixão, sua relevância e sua importância. Gostem ou não do filme, sua mensagem precisa ser discutida e encarada por mais dolorosa que ela seja.

Medida Provisória poderá ser criticado, mas apagado, nunca.


“Medida Provisória” (Bra, 2022); escrito por Aldri Anunciação, Lázaro Ramos e Lusa Silvestre; direção Lázaro Ramos e Flávia Lacerda; com Alfred Enoch, Seu Jorge, Taís Araújo, Aldri Anunciação, Emicida e Adriana Esteves.


Trailer do Filme – Medida Provisória

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