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O Beco do Pesadelo | Chato, mas o visual salva

Desde o começo de sua carreira, Guillermo del Toro vem buscando monstros. Talvez pela primeira vez em sua filmografia, o cineasta mexicano tenha se despido do sobrenatural para encontrar o pior monstro de todos em O Beco do Pesadelo.

Talvez “piores”, já que o filme, que é uma adaptação do livro de William Lindsay Gresham, não economiza monstros. Mais ainda, sem o fantástico envolvido, tudo parece pior, mais mau. Mais humano.

O Beco do Pesadelo caminha com esse homem, Stan Carlisle (Bradley Cooper), que começa misterioso, literalmente enterrando e colocando fogo em seu passado, deixando ele queimar enquanto busca um lugar onde ninguém se importa quem ele é e nem de onde ele vem. O lugar perfeito para isso é um circo cheio de atrações bizarras e que eram comuns durante essa década de 30 nos Estados Unidos, quebrado pós “crack da Bolsa” e meio sem esperança.

O filme então é dividido entre duas partes bem distintas. Na primeira Stan encontra seu espaço nesse circo, mas um espaço onde existe a possibilidade dele alçar voos maiores, mesmo que isso signifique que ele deverá, mais uma vez, marcar seu passado com essa violência que parece o perseguir. O segundo momento de O Beco do Pesadelo é disparado, justamente, pela decisão de ir além, doa a quem doer.

Stan se torna uma espécie de “showman” que serve de diversão para os ricos e poderosos enquanto surpreende a todos com seus truques mentais. Mas ele está prestes a descobrir que ainda é possível ir mais longe, mesmo que signifique colocar tudo em risco.

O roteiro é escrito pelo próprio del Toro em parceria com Kim Morgan, e por mais que a dupla não consiga construir um ritmo interessante para o filme, o resultado ainda é esse quase estudo de personagem onde o próprio protagonista é quase o vilão de sua história. A diversão é garantida enquanto o espectador acompanha o peso dessas decisões e o quão fundo pode ser o poço onde esse homem desce. Mas falta movimentação e isso vai deixar muita gente achar o filme meio chato.

Existe uma delicadeza com cada personagem, e isso leva tempo, junte também um espaço enorme para a direção de del Toro criar um filme lindo e com uma direção de arte impressionante. Tudo é incrível, do circo e suas atrações, até o brilho da cidade grande e seus ternos e chapéus. Mas a trama parece criar uma expectativa maior do que consegue cumprir.

Stan encontra uma psicóloga que o ajuda nesses golpes aos ricaços e poderosos (Cate Blanchett), e é impossível não esperar que seu arco seja um pouco mais surpreendente do que é. Tudo soa burocrático e óbvio, sem contar o desperdício, já que Blachett é sempre incrível e dessa vez praticamente não pisa fora de seu consultório e tem três ou quatro cenas. A mesma sensação vem com a presença do dono do circo vivido por Willem Dafoe, que com o pouco que tem em mãos, cria um arco que eleva essa maldade a patamares inegavelmente incômodos, mas somente para fechar o ciclo do personagem principal no final do filme, nunca para influenciá-lo durante a trama.

Na verdade, nada parece influenciar as ações dele. É como se Stan só estivesse ali para tentar tirar proveito de todos ao seu redor, mas quase de um jeito sutil. Não existem grandes maldades e isso provoca no filme um tipo de tédio. Talvez falte até um pouco de emoção para O Beco do Pesadelo, principalmente por fazer de tudo para não julgar o caráter do protagonista. Pior ainda, deixa para os momentos finais uma surpresa que era óbvia desde o começo, mas que tenta com isso mostrar o quanto Stan sempre foi mau.

Para a sorte dos fãs de del Toro, o diretor aproveita O Beco do Pesadelo para mergulhar em uma espécie de “terror chique”. O visual é lindo, os personagens são horríveis e cheios de pecados e decisões errados, mas quando eles morrem e são colocados abaixo da linha da humanidade, del Toro está tão preocupado com o esse choque que vai fazer muita gente virar a cara enquanto ele claramente se diverte com isso.

É possível até que a beleza desse visual salve O Beco do Pesadelo de se tornar um passatempo muito mais chato do que é. Para qualquer lugar que a câmera de del Toro se vire, tudo tem cara de efeito visual prático, cenários enormes, uma direção de fotografia dedicada e uma personalidade que é sempre característica dos filmes do diretor.

Del Toro busca monstros, mas também está sempre tentando encontrar filmes com visuais tão bem cuidados que é impossível ignorar isso para só reclamar do ritmo. O Beco do Pesadelo então pode até ser meio chato, mas o visual vale tanto a pena que salva o filme.


“Nightmare Alley” (EUA, 2021); escrito por Guillermo del Toro e Kim Morgan, à partir do livro de William Lindsay Gresham; dirigido por Guillermo del Toro; com Bradley Cooper, Cate Blanchett, Toni Collette, Willem Dafoe, Richard Jenkins, Rooney Mara, Ron Perlman, David Strathairn e Holt McCallany


Trailer do Filme – O Beco do Pesadelo

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