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7 Prisioneiros | Crítica do Filme | CinemAqui

7 Prisioneiros | Nada é simples


A dor de 7 Prisioneiros está na sensação de verdade. Não de realidade, mas sim de entender o quanto algumas decisões são tomadas não de acordo com aquela moralidade edificante que o ser humano adora expor, mas sim dentro daquele âmbito da sobrevivência. Aquele lugar onde as certezas morrem.

O filme dirigido por Alexandre Moratto dá a dica disso logo na cena inicial, com o protagonista Mateus (Christian Malheiros), pregando algumas tábuas. A cada pedaço de madeira preso, é como se ele próprio estivesse se colocando em grades. É lógico que o filme chega nesse assunto de modo real, sem nenhuma metáfora, mas para Mateus, essa cadeia é mais complexa do que apenas um lugar com grades.

Mateus é um dos quatro jovens que têm a oportunidade de ir trabalhar em um ferro velho comandando por Luca (Rodrigo Santoro). O problema é que o sonho de juntar um dinheiro para enviar para a família que ficou para trás e descobrir a “cidade grande” se torna um pesadelo.

Os quatro são os prisioneiros do título e acabam tendo que sobreviver a um regime de escravidão. Infelizmente o filme não aponta suas armas para uma situação fictícia ou histórica, mas sim contemporânea e mais comum do que o século 21 deveria lidar. E por mais que o roteiro do próprio Moratto em parceria com Thayná Mantesso se inspire nessa situação, seu filme é sobre algo bem mais complexo. Assim como mais doloroso.

Talvez um filme sobre os custos da liberdade. Ou até que tenta responder a pergunta que o próprio roteiro faz: livre pra quê?

Em ambos os casos o preço é alto demais, e se manter ao lado desses personagens enquanto eles rumam para esse lugar é difícil demais para o espectador. Quanto mais esse caminho se torna óbvio do lado de cá da tela, mais o espectador torce para estar errado. Não em termos de decepção, mas de ter aquela vontade de ficar olhando com o canto do olho para o desastre iminente. Mesmo, racionamento, seu cérebro te pedindo para desviar o olhar.

7 Prisioneiros

O truque de Moratto e Mantesso não é tentar contar a história de um Capitão do Mato moderno, mas sim da humanização de alguém que descobre que o único jeito de sobreviver é… sobrevivendo, custe o que custar. Não enfrentando um perigo concreto, mas um pior ainda, que coloca o personagem naquele lugar onde ele não quer estar, mas que entende que deverá estar.

É lógico que isso é um spoiler para quem não quer saber nada sobre o filme, mas isso não é um problema, nem uma surpresa. Pior ainda, é uma evolução óbvia. “Pior”, porque é difícil acreditar que o espectador não irá ficar incomodado com as decisões do roteiro, mas nunca colocando em julgamento nem isso, nem sua qualidade, já que o crescimento da trama é poderoso, direto e extremamente bem construído.

O elogio do opressor logo no começo da história é uma porta de entrada para o desenvolvimento de uma relação que é, ao mesmo tempo sincera, delicada e, mais do que tudo, complexa. Um quadro inteiro de tons de cinza, mas pintado ali na frente do espectador, pincelada por pincelada.

A direção de Moratto é firme, objetiva e faz duas das coisas mais importantes que um diretor pode fazer. De um lado conta a história, e conta bem, é impossível não entender cada nuance da história, dos personagens e dos objetivos do roteiro. Do outro, abre espaço para um ótimo elenco e duas atuações incríveis da dupla de protagonistas.

O Mateus de Malheiros é vivo em todos os sentidos. Sente tudo aquilo que está acontecendo e não toma um atalho de grandes mudanças no personagem, mas sim até de ir escondendo a expansão do personagem inicial por trás de uma culpa que vai atrofiando sua personalidade e uma tristeza que vai tomando conta de suas ações. Sua liberdade custa caro e o peso disso em suas costas talvez seja difícil demais de ser carregado.

Do outro lado dessa equação, Rodrigo Santoro é esse vilão seboso e violento que o filme faz questão de humanizar. Não “passando pano” para suas maldades, mas aceitando que essa maldade pode ser algo complicado. Talvez ele próprio seja um sobrevivente e não é difícil o espectador começar a entender e, ele próprio, aceita-lo. O antagonista se torna humano. O peso que carrega vai sendo mostrado e Santoro, assim como Malheiros, não corta nenhum caminho, apenas deixa claro que nem tudo é simples.

7 Prisioneiros não é simples. Pelo contrário, é complexo e dolorido. Mas ao mesmo tempo é hipnótico e poderoso. Discute um assunto relevante, mas quer mesmo é entender o quanto o ser humano se comporta de um jeito que ultrapassa aquela moralidade glorificante quando o assunto é continuar sendo um ser humano.


“7 Prisioneiros” (Bra, 2021); escrito por Alexandre Moratto e Thayná Mantesso; dirigido por Alexandre Moratto; com Christian Malheiros, Rodrigo Santoro, Josias Duarte, Cecília Homem de Mello, Vitor Juliam, Clayton Mariano e André Abujamra.


Trailer do Filme – 7 Prisioneiros

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