A Suspeita | Crítica do Filme | CinemAqui

A Suspeita | Um thriller policial autenticamente tupiniquim

Se tem um bom motivo para assistir A Suspeita é a atuação de Glória Pires, uma das grandes atrizes da dramaturgia brasileira que ainda está em atividade. Desde O Quatrilho – após a retomada do cinema nacional e o segundo filme a ser indicado ao Oscar – a Nise: O Coração da Loucura – um passeio delicioso pelas possibilidades da mente e da comunicação humanas – Glória sempre foi a escolha certeira. Aqui ela faz essa investigadora solitária e que luta contra forças internas para manter suas memórias ainda vivas e resolver seu último, ou melhor dizendo, o grande caso de sua carreira.

Abdicando de vida pessoal para galgar o posto de comissária da polícia civil carioca, Lucia é uma personagem que se monta a partir de fragmentos de seu dia a dia. Esse é o mesmo formato adotado pelo roteiro escrito a oito mãos, que segue uma cartilha próxima de filmes como Amnésia (aquele do Christopher Nolan, de 2000), ainda que com menor intensidade, mas que também utiliza o ponto de vista e as memórias da protagonista cena a cena para entendermos seu drama interno e a confusão mental que ela vive para conseguir não se esquecer de nenhuma pista ou detalhe que possa passar despercebido.

Ela investiga uma informação confidencial entre Beto, um traficante comandante de quadrilha no Rio de Janeiro, e o escritor/jornalista que está montando uma biografia sobre o sujeito. Essa informação tem relação com corrupção entre os grandes na própria corporação que Lucia trabalhou a vida inteira. Sua tortura psicológica é conseguir agir apesar de nunca saber se seus superiores imediatos estão envolvidos. Quando seu colega acaba sendo morto em um tiroteio extremamente suspeito ela vira alvo da mídia e o motivo que todos em volta parecem ter aguardado para colocá-la de escanteio.

O que impressiona mais na postura de Lucia é que ela poderia muito bem dar de ombros e fazer apenas seu serviço. Acumulando uma aposentadoria que poderia lhe fornecer conforto nos últimos anos de sua decadente vida graças à doença degenerativa sem cura que é vítima, seria a hora de se desligar de vez do mundo. Se esquecer. E é justamente isso a única força que mantém Lucia de pé, trabalhando todas as horas do dia e da noite para desvendar um esquema que vai se desdobrando em dimensões improváveis, e por isso mesmo, assustadoras.

A Suspeita | Um thriller policial autenticamente tupiniquim

O grande trunfo da direção exagerada de Pedro Peregrino, que estreia na direção mas já auxiliou José Padilha em Tropa de Elite, é sua pegada pseudo-realista. Com a ajuda de diálogos que ressaltam o cotidiano com falas e gírias consideradas comuns hoje (com o risco de soar datado apenas daqui alguns anos), Peregrino reforça esse cotidiano utilizando elementos que nossa memória brasileira irá identificar, como a fachada de prédios e viadutos típicos das grandes cidades, assim como comunidades que viraram panorama na triste e decadente capital fluminense. Até detalhes mais sutis, como o uso de locações mais antigas do centro, auxiliam o espectador a se situar no tempo e no espaço de um thriller policial autenticamente tupiniquim.

Porém, o filme não consegue disfarçar que usa figuras de linguagem e narrativa comercialmente convencionais e importadas de Hollywood. É daí que vem as cenas cheias de fades, uso de foco e movimentos de câmera involuntários e desnecessários, que apenas nos fazem lembrar que esta é uma tentativa de realizar mímica com o esperado pelo público internacional. Não se trata de clichê de gênero porque é algo facilmente identificado por nós através de infinitas horas de enlatados norte-americanos.

Felizmente esse pequeno detalhe de produção não diminui todas as outras virtudes de A Suspeita, que se mantém firme até o fim como um bom exemplo de filme psicológico que sequestra nossa atenção para onde quer que mire. Há uma riqueza na composição desse universo que é imune a cacoetes do cinema comercial.

E que pode ser admirado principalmente graças à atuação de sua protagonista. Glória Pires brilha como de costume. O triste é que esse costume se repete apenas de vez em quando no cinema brasileiro. E isso se contarmos que já se passou mais de 30 anos após a retomada soa ainda como um ritmo bem tímido, mesmo que estejamos já falando de cinema de gênero.


“A Suspeita” (Bra, 2021); escrito por Newton Cannito, Fernanda De Capua e Thiago Dottori; dirigido por Pedro Peregrino; com Glória Pires, Gustavo Machado e Rodrigo Gemino.


Trailer do Filme – A Suspeita

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