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A Tragédia de Macbeth | Crítica do Filme | CinemAqui

A Tragédia de Macbeth | Ainda é possível ser novo com Shakespeare

William Shakespeare nasceu em 1564. A Tragédia de Macbeth foi apresentada nos palcos ingleses pela primeira vez em 1604. Joel Coen nasceu bem depois de Shakespeare, em 1954, e bem longe, em Minnesota, mas em 2021 provou mais uma vez que ainda há espaço para fazer algo de diferente com Macbeth em seu tragédia.

Mas talvez o chamariz inicial do filme nem tenha sido o ganhador do Oscar decidindo fazer mais um filme de mais uma obra de Shakespeare, até porque sempre parece que tudo já foi feito. O que chamava a atenção era esse ser o primeiro filme solo de um dos irmãos Coen, já que Ethan, aparentemente, entrou em um hiato/aposentadoria. Felizmente, não era necessária nenhuma bruxa para apontar o sucesso disso. Afinal, era Shakespeare, tinha um diretor incrível e um elenco capitaneado por Francis McDormand e Denzel Washington.

Porém é preciso dizer que esse novo A Tragédia de Macbeth ainda tem Bruno Delbonnel na direção de fotografia e uma equipe de design de produção que é tão incrível que seria impossível citar apenas um nome responsável. Delbonnel e suas cinco indicações ao Oscar já tinha trabalhado com os Coen em preto e branco em Inside Llewyn Davis, mas antes disso, entre outros trabalhos rebuscados e inesquecíveis, tinha assinado a impressionante iluminação de Fausto de 2011.

O preto e branco de A Tragédia de Macbeth pode até vir com a intenção de mostrar que “o bem é o mal e o mal é o bem”, com o monte de tons de cinza, mas o formato de tela em 1.37:1 (aquele meio quadradão e que remete aos anos 30 de Hollywood e os filmes em 35mm) pode parecer vir de uma outra inspiração. As referências visuais à O Martírio de Joana D´Arc, de 1928, são quase explícitas e o resultado é embasbacante.

O filme de Carl Theodor Dreyer tem talvez algumas das cenas mais visualmente impressionantes da história do cinema. Um mundo medieval que não queria ser realista, mas sim poderoso, estéril e que deixava ainda mais clara toda violência sofrida pela personagem. A Tragédia de Macbeth faz o mesmo, todo filmado dentro de estúdio e com uma direção de arte que transforma o branco em algo tão branco que dói os olhos. Já o preto é infinito, profundo e recortado. Os dois lados desse espectro de luz. Os dois lados desse espectro moral.

A Tragédia de Macbeth | Ainda é possível ser novo com Shakespeare

A criação dos sets constrói cenários que parecem saídos de algum pesadelo expressionista “caligariano”. Cumprido. Amedrontador. Vazio. Suas linhas parecem não ter fim, assim como a loucura do personagem título.

Os figurinos pensados em preto e branco dão uma camada ainda mais profunda paras as duas cores e ressaltam o visual de um jeito que transparece na tela toda essa dicotomia que quase some diante da luz. Falando em “luz”, Delnonnel pega tudo isso e desenha uma iluminação que faz parte do visual do filme de forma quase concreta. Os personagens parecem interagir com essa luz como se ela fosse um pedaço do cenário, recortado por essas sombras poderosas. Delbonnel pinta verdadeiros quadros em cada frame de A Tragédia de Macbeth.

É lógico que o equilíbrio disso tudo só acontece graças à direção sempre firme do “irmão Coen”. Todo esse visual é valorizado e as opções estéticas são uma oportunidade de elevar ainda mais o texto original. Cada composição, cada movimento de câmera e cada corte parecem estar lá para mostrar o quanto o Shakespeare pode ser um espetáculo visual que sabe ter a estática do teatro, mas com a dinâmica da montagem do cinema. A Tragédia de Macbeth parece estar em um palco, mas extrapola essa ideia com as possibilidades que a Sétima Arte lhe proporciona.

A história de Macbeth todo mundo sabe (ou deveria saber), do general escocês que recebe a visita de três bruxas e descobre que será o rei da Escócia. Da sede de poder que o faz pegar certos atalhos para atingir essa visão. Da esposa que o ajuda em toda essa trama. E da loucura de ambos diante da culpa e do poder. Mas mesmo os séculos de distância do material original ainda fazem com que a os diálogos sejam um espetáculo à parte.

Existe um ritmo em Shakespeare que o torna irretocável seja em 1604, seja em 2022. O resultado disso no colo de atores com Washington e McDormand é esplendido. A precisão da dupla é magnética e a construção e destruição dos personagens é talvez alguns dos melhores trabalhos de ambos, mesmo diante de todas sutilezas da situação. Não existem grandes momentos para aparecerem nas indicações aos prêmios da temporada, são dois trabalhos que apostam na suavidade e no silêncio entre cada frase. Na reação sutil, porém poderosa (e obviamente, fadadas a várias indicações merecidas).

E A Tragédia de Macbeth é isso, um filme sutil, porém poderoso. Que tira o espectador de 2022 para algum lugar do cinema nos anos 30, enquanto dá vida a um material de 1603, mas com as opções visuais tão impressionantes que parecem inéditas. Talvez sejam. Talvez Mcbeth tenha sido levado às telas mais de duas dezenas de vezes, mas nunca desse jeito. Nunca em um espetáculo visual tão único e inesquecível.


“The Tragedy of Macbeth” (EUA, 2021); escrito e dirigido por Joel Coen, a partir da peça de William Shakespeare; com Denzel Washington, Frances Mcdormand, Alex Hassell, Bertie Carvel, Brendam Gleeson, Corey Hawkins, Harry Melling, Miles Anderson, Matt Helm, Moses Ingram e Kathryn Hunter.


Trailer do Filme – A Tragédia de Macbeth

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