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Águas Selvagens | Crítica do Filme | CinemAqui

Águas Selvagens | Noir em portunhol

Se você gosta muito de filmes então precisa gostar muito de trash. Não há muitos filmes por aí onde podemos encontrar qualidade mínima, menos ainda o estado da arte, que justifica a existência do cinema. Em compensação, há uma tonelada de filmes desovados anualmente nas salas comerciais de cinema de todo o país. Isso nos faz repensar sobre o status quo adquirido por esses tais filmes raros que são realmente bons. Em contrapartida, os filmes ruins fazem a pipoca sair mais caro que o ingresso, o que é uma lástima para a arte, mas graças à manteiga ainda há esperança no escurinho.

Esse é o contexto geral (confuso, eu sei) com que se deve assistir Águas Selvagens, mais um trabalho que desafia a nossa percepção do que é cinema. Seria o trash a verdadeira arte?

A história começa com um corpo de um homem à beira de um rio. Detalhe: ele está capado. Esse rio fica no fim do mundo, mais precisamente na última cidade argentina antes da fronteira com o Brasil. As autoridades locais poderiam dar conta do caso facilmente, mas o envolvido no processo, o irmão da vítima, acha melhor trazer da capital um ex-policial para investigar melhor e conseguir se safar. Ou seja, há um cheiro de podridão no ar, de algo que não está certo mesmo sem sabermos que você irá sentir em cinco minutos de projeção.

O policial/investigador é um recluso. Não pode ver a filha e se finge de amigo virtual para poder falar com ela pela internet. Ele sai de Buenos Aires e aceita esse trabalho no fim do mundo apenas para conseguir pagar a festa de debutante da filha, mas logo começa a se arrepender conforme os podres da história começam a surgir e ele começa a duvidar que irá escapar dessa vivo.

A atmosfera noir de Águas Selvagens é uma brincadeira bem humorada. Tanto em razão dos infinitos cigarros que o protagonista fuma, com com a impressão de um espectador cansado de clichês. O limite entre Brasil e Argentina na história se torna tão próximo quanto o noir e o trash no filme. Os idiomas português e espanhol se intercalam nessa produção binacional.

Águas Selvagens | Noir em portunhol

Não demora muito e os personagens se acumulam em um thriller confuso. A sensação geral é de estar perdendo algum detalhe importante para entender a trama, mas chega uma hora em que os detalhes são tantos que é melhor deixar o filme nos levar. E para onde eles nos leva? Essa vira uma pergunta difícil de responder conforme os temas de abuso infantil, violência contra a mulher, corrupção e fetichismo se misturam.

Mas o trabalho de imersão é atraente. Uma fotografia cinzenta com alto contraste deixa o herói da história uma ou duas décadas mais velho, e sua barba mal feita e por fazer é a cereja do bolo, principalmente por estar junto de um incômodo suor na face do sujeito. A iluminação das cenas torna os bandidos mais cruéis, com a cara cheia de sulcos e falhas. A falta de cores quentes harmoniza com a sugestão de um grão maior da “película” (apesar de digital) que torna um filme que se passa quase todo o tempo no período do dia drenado da luz do sol.

Há um pouco, bem pouco, de humor neste investigador portenho interagindo com os locais. Interpretado por Roberto Birindelli com uma introspecção que o projeto não merece, ele fala em espanhol e recebe a resposta sempre em português. Há algumas palavras em comum nos dois idiomas que em alguns momentos faz virar uma mescla poliglota, mas o sotaque ou o choque de gerações e classes sociais os mantém separados: o proletariado sofrido imigrante (pulou a cerca) fala português brasileiro, já os corruptos, fetichistas e canalhas se comunicam usando espanhol. Menos nosso herói da capital.

Na maior parte do tempo você fica inquieto tentando entender a história, mas quase querendo desistir porque os personagens não merecem tamanha atenção. O que nos segura é o trash, a sensação de que estamos vendo um filme muito ruim e longo sobre filmes igualmente ruins e longos. E por que isso seria bom? Não seria. É apenas a esperança de ver algo diferente. Uma metalinguagem, uma discussão de gêneros ou clichês do noir. Esperamos pela risada, mas o drama atrapalha. Tem reviravoltas tristes pelo caminho e elas não ficam engraçadas ou bizarras porque o filme os leva a sério. Claro que temas como abuso infantil são ultrassensíveis, mas este não é um documentário em primeiro lugar. Faz até pensar se os personagens do filme realmente estão acreditando que vivem nessa ficção peculiar de bizarra.

Tudo seria mais fácil se este fosse um filme que se passasse uma camada acima apenas no grau de esperteza de seus idealizadores. Tudo que nós cinéfilos esperamos são bilhetes secretos destes, escondidos por trás de um bom trash. E tudo o que nós cinéfilos não esperamos é que um filme de qualidade duvidosa comece a se levar a sério. Isso frustra nossa jornada em busca da experiência sem consequências, da emoção da sala de cinema, que logo irá virar fumaça, e o que irá restar é esse gostinho de trash divertido. Infelizmente não foi assim em Águas Selvagens.


“Águas Selvagens” (Bra, 2020), escrito por Óscar Tabernise, dirigido por Roly Santos, com Roberto Brindelli, Mayana Neiva, Leona Cavalli, Luiz Guilherme, Juan Manuel Tallategui  e Allana Lopes.


Trailer do Filme – Águas Selvagens

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