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Amor com Fetiche | Crítica do Filme | CinemAqui

Amor com Fetiche | 50 tons de moralismo

Enquanto o esforço de internacionalização cultural da Coréia do Sul segue de vento em popa, a cada dia que passa o cinema do país se torna um produto ainda mais disputado, não só pelo Oscar de Parasita, mas por, diferentemente do K-pop, por exemplo, ter décadas e décadas de experiência e filmes. Mas todo esse preâmbulo não serve para nada, já que Amor com Fetiche não faz parte desse esforço.

Por mais que o novo lançamento da Netflix vá perambular pelos algoritmos de muita gente, o filme escrito e dirigido por Hyeon-jin Park tem mais jeitão de mercado interno e não parece muito preocupado com o público de outros países.

Em Hollywood, Amor com Fetiche iria ser uma comédia “mais comédia”, na Coréia o filme parece mais focado no “romântico” do gênero, mesmo que tropece em uns risos de vez em quando. Mas não tropeça muito, o que talvez seja um problema do filme, já que o que não falta seria espaço para isso. Na verdade, espaço para mais um monte de coisas, já que tudo parece meio vazio em certos momentos.

Mas a ideia é boa. Uma equipe de RH do que parecer ser de um programa infantil, onde Jung  Ji-Woo (Seohyun) é uma funcionária experiente que acaba interessada pelo novo companheiro de trabalho, Jung Ji-Hoo (Joon-Young Lee). Na verdade, não é bem assim, mas a trama passa por isso, já que o nome parecido dos dois faz com que ela descubra que ele, na verdade, tem como fetiche a dominação. E todo dominado precisa de uma dominadora.

Por ser uma comédia romântica, é óbvio que a trama passa pelo crescimento da paixão dos dois enquanto ele convence ela a se tornar sua “mestra”. Uma posição que no começo deixa ela desconfortável, mas aos poucos vai permitindo que ela abra suas defesas e, de repente, comece a gostar dele.

Nos Estados Unidos, a vida do casal seria impregnada de personagens coadjuvantes que atrapalhariam sua paixão e amigos engraçados que se meteriam na vida deles, aqui, nada disso acontece. Por um lado, isso deixa o filme lento, por outro, tem muito mais tempo para focar nos sentimentos do casal. O maior problema disso é a sensação de repetição e a falta de surpresas e solavancos externos. Pior ainda, quando eles aparecem, são mal trabalhados, como é o caso da ex-namorada dele, que acaba até deixando o filme um pouco mais pesado do que deveria.

Amor com Fetiche | 50 tons de moralismo

Talvez falte mesmo coragem de ir além. Faltam risos mais fáceis, problemas mais exagerados e, principalmente, tempero. Amor com Fetiche tem fetiche, mas falta um pouco de safadeza, mesmo que não explícita. Paira um tom moralista na ideia toda, não castigando qualquer nudez (que talvez não seja a ideia inicial), mas não permitindo que seus personagens se excitem ou desfrutem desses momentos de modo mais sexy. A intenção está lá, com algumas montagens mostrando essas sessões de dominação, mas nenhuma delas extrapola a Sessão da Tarde.

Muito provavelmente esse esforço todo tenha a ver com o próprio mercado interno. Não por moralismo, mas por tentar estender ao máximo seu público e as mensagens que carrega. Parte desse público alvo deve vir pela presença da protagonista vivida por Seohyun, estrela do grupo K-pop Girl´s Generation, que desde de 2016 vem focando na carreira de atriz. O trabalho dela no filme é firme e entende a personagem, consegue compreender a força e a fragilidade da protagonista, o que dá ao filme um ponto de partida emocional que segura toda experiência do filme.

Acrescente isso a uma câmera de Hyeon-jin Park que ama Seohyun e se perde olhando para ela. São planos inteiros de pura contemplação à beleza da atriz. É lógico que isso valoriza a atriz e seu trabalho, mas em certos momentos essa vontade plástica é tão explícita que é fácil colocar em discussão o quanto isso não é uma exploração vazia só da beleza da atriz, o que vai de encontro à parte da mensagem do próprio filme.

Se de um lado Amor com Fetiche é sobre esse amor que nasce e ultrapassa algumas barreiras morais e traumas, o filme ainda tem uma vontade imensa de discutir o papel das mulheres na sociedade coreana (e mundial). São vários os momentos onde o filme confronta esses homens desagradáveis perseguindo suas companheiras de trabalho e até colocando-as em posições de constrangimento emocional.

Em ambos os casos, essas mulheres são salvas e vingadas por um outro homem, o que coloca ainda mais em “checkmate” essas boas intenções. Junte isso a um pouco daquele moralismo lá de cima (o “bondage com esporte fino” me parece muito esquisito!), e o resultado é um filme que,  realmente, não quer falar com um público mais amplo, mas sim trabalhar com o que parece ser um público coreano sem levantar muitas polêmicas ou posicionamentos mais “progressivamente expressivos”. O que é uma pena.

Amor com Fetiche vai acabar “saindo” da Coréia com o selo da Netflix, mas talvez o pessoal por aí acabe sentindo falta, justamente, de um pouco mais de uma Hollywood que sabe ser mais engraçada, mais apimentada e um pouco menos moralista (não muito.)


“모럴센스” / “Moreaolsenseu” (Cor, 2022); escrito e dirigido por Hyeon-jin Park, com Seohyun, Lee Jun-young, Lee El, Seo Hyun-woo, Kim Bo-ra, Baek Yun-joo e Ahn Seung-gyun


Trailer do Filme – Amor com Fetiche

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