Arremessando Alto | Crítica do Filme | CinemAqui

Arremessando Alto | Um verdadeiro “Triple Double”

Um bom filme sobre esportes nunca é sobre o adversário. Enquanto Rocky era sobre o próprio, o resultado era sempre acima da média, assim como o primeiro Creed e diversos outros como Carruagens de Fogo e Um Domingo Qualquer. São os limites impostos aos nossos heróis que são os vilões. Voltando ao Rocky Balboa, ou pelo menos, à Filadélfia, Arremessando Alto faz exatamente isso.

A meia hora de carro da estátua do Rocky está o estádio do Philadelphia 76ers, time de basquete da cidade e que serve também de pontapé inicial (ou aquela disputa no centro da quadra no começo do jogo de basquete) para a nova produção da Netflix, estrelada por Adam Sandler e provando mais uma vez que, quando não faz questão de ser um personagem completamente idiota, na maioria das vezes acerta.

No filme, Sandler é Stanley Sugerman, um experiente olheiro do time de basquete que roda o mundo em busca do próximo achado que irá se tornar uma estrela da NBA. Mas diante da possível chance de se tornar um dos técnicos da equipe do 76ers é obrigado a sair mais uma vez em busca de um novo jogador, o que o coloca no caminho do jovem espanhol Bo Cruz (Juancho Hernangomez).

É lógico que o roteiro escrito por Taylor Materne e Will Fetters (o segundo recentemente indicado ao Oscar por Nasce Uma Estrela) não vai muito mais longe do esforço que Stanley e Bo precisam fazer para que o jogador seja visto por algum time da NBA,  mas o acerto principal do filme está, justamente, em como chega nesse lugar.

Por mais que o filme não fuja dessa fórmula, a trama está sempre pronta para criar obstáculos críveis e problemas que vão se acumulando e resolvendo. Arremessando Alto não cai na armadilha de apenas uma grande vitória climática no final, mas sim se sustenta com dificuldades que vão servindo para desenvolver, não só as personalidades dos dois protagonistas, mas, mais do que isso, a relação entre eles. E o filme é sobre isso, não importa em que lado da quadra estão no final.

Arremessando Alto | Um verdadeiro

Arremessando Alto é sobre o quanto esses dois personagens precisam ultrapassar tudo aquilo que os empurrava para trás, todas suas inseguranças, raivas e frustrações, para que uma cesta passe a valer muito mais do que três pontos. O roteiro da dupla ainda acerta ao criar uma trama dinâmica que permite que pequenas reviravoltas sempre voltem a entregar a esperança aos dois. Isso e um amor incondicional pelo esporte.

Sandler não cansa de demonstrar essa paixão fora dos filmes, mas, com certeza, o nome de LeBron James entre os produtores ajudou Arremessando Alto a ser essa homenagem perfeita ao basquete americano. A lista de participações especiais no elenco do filme é incontável, sejam nos papeis deles próprios, sejam interpretando outros personagens, como é o caso de Hernangomez, “draftado” em 2006 pelo Denver Nuggets e hoje jogador do Utah Jazz. Mas fica para os fãs na NBA tentarem reconhecer todas dezenas de jogadores que dão as caras no filme.

O outro acerto de Arremessando Alto é mesmo a presença do diretor Jeremiah Zagar, vindo de uma larga experiência em documentários e que faz de seu segundo longa, não só uma das melhores coisas que o espectador vai ver em 2022, como também um dos mais divertidos e visualmente interessantes filmes sobre basquete. Zagar e o trio de montadores (Tom Costain, Keiko Deguchi e Brian M. Robinson) colocam o espectador dentro da vida dos dois personagens e isso vale o filme.

Ele abre com uma montagem (do francês “montage”) do personagem de Sandler viajando em busca de reforços, o ritmo é frenético, as rimas visuais são bem construídas e o clima de cansaço é poderosíssimo. É impossível não começar o filme sem entender a razão de Stanley Sugerman estar cansado dessa vida. Do mesmo jeito, a esperteza do roteiro em entender a capacidade rítmica do filme, praticamente repete a mesma ideia no meio do filme, mas agora mostrando o quanto a repetição pode ser positiva e resultar na satisfação que vem com o sucesso. A famosa “montagem de treinamento” de Arremessando Alto é tão boa que toma de assalto praticamente todo segundo ato do filme e absolutamente ninguém irá reclamar disso.

O diretor Zagar ainda expande essa facilidade visual para dentro da quadra, entendendo o quanto um jogo de basquete pode acontecer não só entre as cestas, mas também nos olhares, reações e gestos. Cada jogo de Arremessando Alto é um exemplo de como aquela tal de “montagem intelectual” dos soviéticos nos anos 20 ainda funciona. Não existe plano sozinho, mas sim uma sequência inteligente de cortes que se interligam para provocar emoções diferentes nos planos ligados a ele.

Isso pode parecer complicado, mas a verdade é que Arremessando Alto tem o rimo perfeito para entender a velocidade do basquete, assim como sabe valorizar os trabalhos do elenco. Sandler aparece mais uma vez como um personagem que precisa conviver com suas falhas, mas tem uma faísca de esperança nos olhos o tempo inteiro. Melhor ainda, Sandler entrega ao personagem um humor sutil e cansado que combina perfeitamente com o personagem. Ao seu lado, Hernangomez é obviamente completamente inexperiente, mas o diretor, e Sandler ao seu lado, conseguem arrancar dali, do seu amadorismo, uma camada do personagem, como se ele estivesse deslocado de seu mundo, errático e inseguro diante de um novo lugar. Ben Foster, que geralmente é um ótimo ator, tem uma participação menor, mas é tão entediante, desastrada e vergonhosa que é melhor ignorar.

É lógico também que Arremessando Alto não quer ser um drama pesado sobre o esporte, mas sim uma ode. Portanto, o final você já pode imaginar. O que não é um problema, já que todo o resto é feito de modo tão carinhoso, esforçado e respeitoso que é impossível não se apaixonar por Arremessando Alto do mesmo jeito que ele é apaixonado pelo basquete.


“Hustle” (EUA, 2022); escrito por Taylor Materne, Will Fetters; dirigido por Jeremiah Zagar; com Adam Sandler, Queen Latifah, Juancho Hernangomez, Bem Foster, Kenny Smith, Anthony Edwards, Robert Duvall e Jordan Hull.


Trailer do Filme – Arremessando Alto

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