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Humor para mal-humorados

A comédia pode extrapolar todos os limites do absurdo e do ridículo sem maiores preocupações com a lógica do mundo aqui fora. “Isso não faz o menor sentido na vida real”, pensamos. Não importa. Importa a graça, o riso. Se mostramos os dentes ou erguemos os cantos dos lábios, a piada ou a situação cômica funcionou.

Nem sempre as gargalhadas são acompanhadas de reflexões profundas, com críticas sociais por trás do texto. Basta pensar nas tantas obras apelando a escatologias: merda, peido e mijo em troca de risos. Em outros casos, usa-se do fácil artifício da nudez gratuita: há quem ache hilário ver tetas, rabos, bucetas e pirocas expostas sem contexto. Existe apelação para todos os gostos. Nas piadas mais adeptas à baixaria pura e simples, a graça opera na antiga lei do “vem fácil, vai fácil”.

Quando a comédia se vale do absurdo bem escrito e executado, temperado com contexto para amarrar a história, é possível rir a vida inteira de uma mesma situação cômica projetada em séries televisivas ou filmes. Nada supera o primeiro riso, o contato inicial com a piada, pegando de surpresa e revelando o ridículo dentro de nós. Mas é ultrapassando os limites do ridículo que a graça fica, surgindo anos depois sem avisar, de mala e cuia, trazendo a incontrolável vontade de compartilhar o quão engraçado é aquilo. Mesmo que estejamos acompanhados de pessoas sem bagagem para captar esse momento de genialidade.

São incontáveis as situações non sense, grotescas, estapafúrdias e por isso mesmo tão engraçadas: o milionário investindo num café como vingança contra o dono do estabelecimento vizinho, que o tratou mal; a protagonista se masturbando enquanto assiste a discursos presidenciais; a noiva morta semanas antes do casamento por colar um selo com a língua, usando substância absurdamente tóxica; o idiota com um frango cru de óculos escuros sobre a cabeça; o maluco de boné vermelho com a inscrição “Make America Great Again” para ninguém incomodá-lo em lugares públicos; o órgão do governo em que só entram pessoas caminhando com passo tolo e descompensado.
É um riso cortante, que nos atravessa, perturba e incomoda. “Por que estou rindo se isso é tão ridículo?”, nos perguntamos. Não conheço alguém capaz de trazer respostas completas e convincentes.

Pessimistas também riem

Me acusam de ser pessimista. Tenho fortes dificuldades em alimentar alguma esperança no futuro, se é que ele existe. Meus comentários ficam ainda mais ácidos quando observo a realidade de forma crua. É mais forte que eu, admito. Também me acusam de ser mal-humorado. Talvez por criticar a banalização da alegria nas redes sociais, com mensagens motivacionais sem pé no mundo real, alimentadas por coaches e gurus de todas as espécies.

Mesmo com uma personalidade vista como defeituosa, sou contador de piadas. Exóticas, excêntricas, estranhas, estúpidas. Mas sou contador de piadas. Faço trocadilhos ruins conscientemente. A graça está no constrangimento da anedota horrorosa, pensada rapidamente, numa sacada instantânea a partir de situações, comentários, fatos do cotidiano. Tenho uma queda pelo humor autodepreciativo – um tombo, dizem. Comigo, inexiste vergonha de ser metralhado por olhares de “mas o que esse cara está falando?” depois de vomitar um jogo de palavras medíocre e muitas vezes sem sentido.

Para mim, rir do ridículo de ser quem somos é importante. Talvez os trocadilhos saibam ocupar esse papel com eficiência. Supostamente pessimista e possivelmente mal-humorado, vou às gargalhadas diante do absurdo, do grotesco e do non sense na comédia. Já não vejo tanta graça assim quando merda, peido e mijo surgem sem contexto, como muleta confortável para provocar risos. E nada contra gente pelada, mas corpos não são engraçados. São apenas corpos.

Controle seu entusiasmo

Semanas atrás, terminei as 11 temporadas de Curb Your Enthusiasm. Os 110 episódios da sitcom exibida pela HBO trazem Larry David como protagonista. O criador de Seinfeld encarna essa versão fictícia de si mesmo após o término de uma das comédias mais importantes de todos os tempos.

Mal-humorado, antissocial, ranzinza, misantropo e rabugento são adjetivos brandos demais para qualificar o Larry da ficção. No meu irrelevante ranking pessoal, Curb ultrapassou Seinfeld, até então inalcançável, como comédia favorita. Coincidência serem criações da mesma pessoa? Sobre isso, não tenho muita certeza.

Já sobre o envelhecimento das comédias, tenho impressões mais claras. Costuma ser irregular, mais voltado à lógica do iogurte estragando fora da geladeira que do vinho maturando por anos e anos. Como bom exemplo, o canal Viva reforça que “esta obra reproduz comportamentos e costumes da época em que foi realizada” ao fim de cada humorístico, novela ou seriado global reexibido, buscando se afastar de falas e tramas preconceituosas aos olhos de 2022. Naquele tempo, era outro contexto, nos alertam. A sociedade anda para frente na maior parte do tempo.

Friends tem seus momentos de apelo ao riso fácil se apoiando na gordofobia, na homofobia e em outras formas de discriminação. Viva o Gordo perde a graça quando não captamos as referências políticas dos anos 1980, em plena reabertura política brasileira, nos números de um versátil Jô Soares se transformando em centenas de personagens com bordões típicos da televisão aberta. Seinfeld, embora tenha um texto brilhante até hoje, por vezes soa anacrônica em tempos digitais ao olharmos para telefones fixos e outras tecnologias jurássicas. Nas horas vagas, revejo a Escolinha do Professor Raimundo com seus personagens apoiados em frases prontas, feito narradores preguiçosos transmitindo jogos de futebol ruins. Monty Python requer bagagem cultural para o espectador não deixar a sacada de cada esquete fugir pelos ares. The Office prima pelo constrangimento no ambiente de trabalho e soa mais hilária para quem fez carreira em escritórios, mesmo irregular nas últimas temporadas.

Curb faz piadas tocando em temas delicados, como antissemitismo, racismo, machismo, homofobia e tantos outros. Calvíssimo, magérrimo e portando óculos de lentes redondas, o Larry David ficcional se mete em problemas, tenta resolvê-los e só piora as coisas: descobre um cachorro que só avança em negros e lésbicas; escapa de ser mordido por outro cão ao descobrir que ele se acalma quando alguém levanta o braço e grita “Heil Hitler”; acaba, sem querer, com o noivado de um casal lésbico ao palpitar sobre vestimentas do casamento; briga na porta de um consultório médico para ser atendido primeiro; reluta em doar um rim para seu melhor amigo; discute no meio de um velório; acidentalmente, mata o cisne negro do dono de um clube de golfe; deixa Ben Stiller cego numa festa de aniversário ao simular um movimento de golfe com um palito de dentes na mão; fere o ego de celebridades ficcionalizadas por elas mesmas; grita no meio da inauguração de um restaurante para minimizar o tique nervoso do chef; é flagrado dormindo numa peça de teatro; se engasga com pelos pubianos da esposa; transa com uma vereadora insuportável para tentar convencê-la a mudar uma lei inconveniente; termina uma temporada mergulhado por acidente na piscina de uma idosa simpática; termina outra sendo devolvido à Terra depois de morrer. E tem mais, muito mais.

É humor autodepreciativo ao extremo. Longe de ser acrítico, caminha na linha tênue entre fazer graça de temas sérios e cair para a discriminação pura e simples. Não é para qualquer comediante. É para Larry David, é para Curb. Nós, os entusiastas da série, costumamos citá-la usando a primeira palavra, num apelido com a mesma falsa intimidade dos paulistanos falando em Lê, Rô, Pri e Ju.

Talvez Curb seja humor feito sob medida para mal-humorados. Adeptos da positividade tóxica podem se sentir mal. “Eu odeio as pessoas individualmente, mas amo a humanidade”, confessa Larry numa das falas mais memoráveis da 11ª temporada. Faz sentido.

O motivo da piada

Politicamente correto é uma expressão usada para descrever falas, políticas ou ações que evitam ofender, excluir e/ou marginalizar grupos de pessoas vistos como desfavorecidos ou discriminados, especialmente definidos por gênero, orientação sexual ou cor. A dupla de palavras também surge como título para classificar algo ou alguém que segue as normas e leis estabelecidas por uma instituição oficial. Ainda é aplicada para se referir à neutralização de uma linguagem ou discurso, evitando o uso de narrativas estereotipadas ou que possam fazer referências às diversas formas de discriminação existentes, como racismo, sexismo, homofobia etc. Num mundo ideal, politicamente correto deveria ser apenas sinônimo de educação e bom senso.

Incontáveis figuras da comédia reclamam do politicamente correto. Raríssimas se dispõem a explicar seu significado e usam a muleta da censura para se contrapor às críticas. Humoristas se vitimizam ao reclamar da suposta vitimização das minorias discriminadas há séculos. Nunca vi figuras públicas relevantes se descrevendo como politicamente corretas, mas o termo tem peso político grande e é puxado para cá e para lá no cabo de guerra da civilização.

Antes de contar uma piada, penso no motivo da graça, mesmo se a anedota for muito sem graça. Para onde estarei olhando ao provocar risos? Por que isso é engraçado? É hilário o diferente? Essa piada só existe para rir do desfavorecido? É de dar gargalhadas a segregação? Qual o motivo da graça? Se for a desgraça, volto atrás e prefiro continuar sisudo.

Não sei se isso é ser politicamente correto. E nem me importo.

Larry é quem manda

Curb estreou no distante ano de 2000, mas são apenas 11 temporadas de lançamentos irregulares. A série volta quando Larry David quer. Há intervalos de um ano, dois anos, seis anos entre uma e outra leva de 10 episódios semanais.

O criador, roteirista e protagonista da série escreve quando quer, não participa das ações de divulgação da HBO, se recusa a dar aquelas usuais entrevistas para falar de sua obra e ganha muitíssimo bem.

A cada 10 episódios brotando de surpresa, os fãs de Curb comemoram como um evento especial. Porque é. E segue a lógica da boa vontade de Larry. Isso parece absurdo para a indústria do entretenimento. Porque é. E Curb fica ainda mais genial assim, pelo absurdo na premissa, nos roteiros, no arco entre episódios, no aval dado pelos donos do dinheiro, na continuidade espaçada e imprevisível.

Curb Your Enthusiasm é, além de absurda: grotesca, sem limites para o ridículo, causadora de risos constrangedores em momentos perturbadores. Não importa. Importa a graça, o riso. A vida também é assim.

Confira os outros textos da coluna Cinefilia Crônica

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