Está Tudo Bem | Crítica do Filme | CinemAqui

Está Tudo Bem | Decisões difíceis e o fardo dos últimos dias

Até o último momento você pensa que o velho homem estava se sabotando. Seria um bom final. Feliz, aliás. Quantos de nós simplesmente não suporta mais viver? Porém, a protagonista de Está Tudo Bem, Emmanuèle, é sua filha, e ela carrega essa relação sempre conturbada entre as gerações em que os traumas da infância batem à porta nos dias finais da pessoa que a criou. Você sente que o velho homem é um sacana esperto e manipulador que não tem muito apreço pela família ou amigos, o que ajuda a mantermos uma distância de sua iminente morte, mas não sabemos se essa é a visão da filha.

Bom, de qualquer forma, em Está Tudo Bem, como o título já sugere, nós nem sentimos pelo estado lamentável de um moribundo. Desde, é claro, que ele seja rico e possa se dar ao luxo de escolher como deseja terminar sua vida.

Dirigido e escrito por François Ozon (Frantz), o tema da eutanásia até é colocado sobre a mesa, mas não é o principal. Este é um filme mais sobre o sofrimento familiar que está por trás das decisões difíceis a respeito dos que amamos ou nos apegamos. As pessoas seguram esse fardo até o último momento, e até muitos anos após a perda, e parece que alguém não vai aguentar. No entanto, quem já perdeu alguém muito querido, mas antes teve que carregar essa difícil situação por vários meses ou anos, vai sentir aquele despertar que se segue depois que o “assunto” finalmente se encerra.

Está Tudo Bem | Decisões difíceis e o fardo dos últimos dias

Há um humor peculiar no sujeito em questão, o que trivializa o drama do filme. Seu intuito é, pelo menos em partes, ser uma comédia de situação com um tema relativamente sensível. O lado prático e as dificuldades da dinâmica de seus personagens gera a comédia. E apesar de ricos franceses, nós sentimos que a eutanásia ainda é um caminho bem difícil de percorrer no primeiro mundo; pelo menos há na Suíça, logo ali, na vanguarda das liberdades individuais.

Ozon pega o livro de Emmanuèle Bernheim (biográfico) e gera tensão através de um roteiro fácil, quase automático, então não há graça alguma. Não há desafio a ser transposto, apenas situações para serem observadas que não nos dizem nada. É um passatempo comercial, como têm se tornado vários exemplares franceses ao longo desta década. O mundo dos brancos ricos carece das cores vivas e eróticas da rotina dos menos privilegiados, que sempre geram momentos mais interessantes de se acompanhar. Deve ser por isso que se fazem tantos filmes de miseráveis. Há um charme entre os cineastas de classe média em filmar aqueles que nunca foram e nunca serão. O que é completamente diferente de filmar a si próprio e enxergar um vazio interior tão grande que o resultado ecoa pelos corredores da mesmice.

Você não vai querer se matar assistindo a Está Tudo Bem. Tampouco irá se sentir bem. É um filme leve e divertido quando não deveria ser. Há algo de muito errado nessa trajetória, e me pergunto como seria um filme sobre os motivos que fizeram Emmanuèle escrever seu livro. Isso, sim, é conteúdo provocativo. Artístico. Ver ricos moribundos no cinema só funciona se nós enxergamos o outro lado, os pobres, olhando do lado de fora.


“Tout S’est Bien Passé” (Fra/Bel, 2021), escrito por Emmanuèle Bernheim, François Ozon e Philippe Piazzo, dirigido por François Ozon, com Sophie Marceau, André Dussollier e Géraldine Pailhas.


Trailer do Filme – Está Tudo Bem

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