Lola e Seus Irmãos | Pode até não gostar, mas é impossível odiar

Lola e Seus Irmãos | Pode até não gostar, mas é impossível odiar

Lola e Seus Irmãos é trabalho francês que lembra as doces comédias de Richard Curtis (Questão de Tempo) porque o resultado é um filme que não dá para odiar. No máximo podemos achar seu final manjado, maniqueísta e simplório, mas se essa fosse uma reclamação válida para filmes água-com-açúcar ela seria para qualquer um que queira abrir nosso coração para o fato do quão somos vulneráveis com resquícios do passado.

A ideia central é que os dois irmãos de Lola são ranzinzas e problemáticos e a garota funciona como o pilar que mantém a sanidade desses três órfãos de mãe e pai, que se reúnem todo mês em frente ao túmulo para conversar. Pelo menos essa é a ideia, pois há comédia o suficiente para esses momentos supostamente fraternais darem errado sempre, e isso é para nos dizer o quão torta anda a dinâmica entre esses irmãos. A comunicação está abalada há não sei quanto tempo, talvez por décadas, mas quando iniciamos o filme parece já não ter mais salvação.

Encontramos este trio no terceiro casamento do mais velho. O caçula se atrasa porque está resolvendo uma emergência em seu trabalho com demolição que irá lhe custar o emprego, uma coisa se junta na outra, e como uma coisa leva a outra ele se esquece do nome da noiva de seu próprio irmão. Algo bobo, talvez, mas isso depende de quem é a noiva. No caso é uma sentimental, uma dessas pessoas que abraça as relações com seres humanos como se fossem suas muletas para caminhar. A ideia dessa personagem é ser a forasteira e enxergar o quão quebrada está a relação entre os dois irmãos. Não é ela que irá enxergar, claro, mas nós, espectadores. Esses momentos são para nos conectarmos com o drama.

Que é um drama, apesar de em quase toda a cena termos algum motivo para sorrir. Esta é uma visão melancólica sobre a vida após a meia-idade e alguns casamentos ou alguns divórcios atrás (importante ressaltar que Lola trabalha com processos de separação de casais), mas o bom humor e o alto astral da direção não permite que o roteiro sagaz cheio de sacadas inteligentes e engraçadas seja usado como material de reflexão. Antes que isso aconteça ele quer construir a atmosfera em que esses franceses não conseguem se conectar, de uma maneira óbvia, o que torna tudo engraçado.

É uma reciclagem de temas com um elenco afiado. Tanto que a direção precisa apenas manter a câmera em movimento casual e focar no elenco afiado que respira com peso seus personagens, embora vivam em uma farsa engraçacinha tentando atingir um pouco de profundidade em seus temas. Essa indecisão entre se tornar profundo ou nos manter rindo é falta de atitude em abraçar um ou outro, e isso desperdiça uma boa história com atores em ótima química. Mas não torna o filme ruim, apenas precisando de uns reparos para se tornar uma experiência inesquecível.

Lola e Seus Irmãos | Pode até não gostar, mas é impossível odiar

Mas enquanto Lola e Seus Irmãos está rodando você irá rir e dificilmente se emocionar com alguns detalhes curiosos nas manias das pessoas. Dois irmãos estão de carro tentando encontrar onde as ex-esposas e a atual estão conversando para tentar salvar o terceiro casamento, e de repente surge um comentário sobre como é confortável dirigir este carro. Outra piada, essa recorrente, do filme se refere ao mais velho e sua obsessão por seu trabalho. Ele se apresenta profissionalmente em todos os lugares possíveis, até mesmo no cinema, e gastou uma fortuna em um equipamento importado que diz qual a cor dos óculos que mais combina com a íris e o rosto de seus clientes. Porém, o manual está em inglês e ele não consegue regular a máquina, que sempre conclui que a melhor cor para seus clientes são inúmeros tons de verde.

Há uma reviravolta tão bobinho no final dessa saga que vai fazer você entender qual o nível de ingênuo, ou fofo, o filme se encontra. A leveza é o que faz lembrar os trabalhos de Richard Curtis, embora com menos coesão e curiosamente com um formato mais comercial e automático que os filmes americanos do cineasta.

O filme é recheado dessas piadinhas que reverberam e acabam se revelando peça fundamental para entendermos seus personagens, que não se revelam apenas pelos diálogos, mas principalmente pelo comportamento. Não fica claro até que ponto a ingenuidade do filme atacou seus criadores, mas é fácil de deduzir que eles foram infectados ao observar o namorado de Lola, uma pessoa de etnia não-francesa cujas atitudes são sempre perfeitas para um ser humano. Não há podre nenhum nele. Ele apenas observa a loucura dos franceses com um carinho paternal. É este o olhar dos criadores do filme para seu conteúdo, sobretudo seus três personagens principais.

A demolição metafórica do começo do filme, que afeta o prédio ao lado e começa a se tornar o tema que desenvolve o arco dessas pessoas, se torna mais óbvia ao final do filme, e quem pegou a referência no começo não ganhou nada. Também não perdeu. Muito pelo contrário.


“Lola et Ses Frères” (Fra, 2018); escrito por David Foenkinos e Jean-Paul Rouve, dirigido por Jean-Paul Rouve, com Ludivine Sagnier, José Garcia e Jean-Paul Rouve.


Trailer do Filme – Lola e Seus Irmãos

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