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Zen e a arte de Maratonar | CinemAqui

Zen e a arte de Maratonar

Conta a mitologia grega: 490 anos antes de Cristo, o soldado ateniense Fidípides correu 40 quilômetros. Segundo Heródoto, historiador da antiguidade, ele fez o percurso entre as cidades de Maratona e Atenas para levar a mensagem de que os persas tinham sido derrotados. Depois de gritar “Nenikekamen!”, anunciando a vitória na guerra, a extrema exaustão lhe fez cair morto.

Desde a primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, no distante ano de 1896 – este depois de Cristo – a maratona é disputada como modalidade das mais nobres. E se você não gosta de assistir a este tipo de competição, lamento informar que o mundo esportivo não gira ao seu redor. Naquela edição, em Atenas, o percurso manteve os 40 quilômetros. De lá para cá, continuou sendo disputada em ruas e estradas, sempre a céu aberto, com pessoas aplaudindo, acompanhando as caras sofridas de cansaço dos corredores, proporcionando lamentáveis incidentes como o padre irlandês atrapalhando o Vanderlei Cordeiro de Lima na mesma Atenas em 2004, ou nos emocionando como na chegada da suíça Gabriela Andersen nos jogos de Los Angeles em 1984.

A distância oficial de uma maratona é de 42,195 quilômetros. O motivo? Bem, recomendo uma pesquisa em outros textos, dedicados à história do esporte e suas transformações ao longo do tempo. Vale a pena, pode crer.

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Não tenho certeza, mas chuto que o verbo maratonar ainda não tenha sido dicionarizado. Também chuto que seja um neologismo, mas deixo essas questões para linguistas e gramáticas. De toda forma, é daquelas palavras que pegam, estão no ar, voando, livres, pousando na boca do povo e se disseminando exponencialmente.

Podemos defini-la como o consumo de qualquer produto de entretenimento de maneira continuada, sem pausas e em curto espaço de tempo. Vale especialmente para séries de televisão, produtos audiovisuais, podcasts e por que não livros e demais formatos esquecidos nessas mal traçadas linhas?

Com o advento, crescimento, popularização e bundalização dos streamings, aumentaram as possibilidades de maratonar conteúdos. Séries de sucesso têm toda a temporada lançada nessas plataformas de uma só vez e lá vão os espectadores gastar as horas de um fim de semana grudados em oito, dez, quinze ou mais episódios de uma só vez. Na segunda-feira, enquanto tomamos um cafezinho na copa do escritório, quem não tiver consumido o entorpecente da vez feito criança engolindo a comida sem mastigá-la terá um ponto de interrogação tatuado na testa, será admirado como extraterrestre recém-pousado no mundo caótico e apressado.

Só depois de muito tempo percebi que a primeira pessoa conhecida a maratonar uma série foi a Amanda, lá no crepúsculo dos anos 2000. Ainda nos DVDs, a irmã do Vinícius, da escola, maratonou todas as temporadas de Friends em menos de um mês.

Eram tempos de preocupações menores, ninguém era impelido a consumir séries o mais rapidamente possível, evitando ficar para trás numa corrida imaginária contra o nada. Terminamos o último episódio preocupados com a próxima tarefa a ser concluída, a próxima série a ser digerida, o próximo pedido no fast food. Absorção, impacto, compreensão e aprofundamento ficam de lado quando se deseja engolir os episódios produzidos em massa e batidos no liquidificador enquanto tuitamos ou respondemos mensagens no celular. Tal qual comidas de verdade, boas séries merecedoras de atenção fatalmente passam batido. O importante é encher a barriga, a saúde do aparelho digestório fica para depois.

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Comecei a me rascunhar como corredor de rua lá pelos idos de 2013. Passei um ano me preparando para uma cirurgia séria na coluna e me vi obrigado a frequentar natação, pilates, RPG e, é claro, a corrida na areia fofa da praia. Precisava de um bom condicionamento físico para minimizar as dores de uma escoliose severa.

Curiosamente, depois de certo tempo percebi que desde cedo gostava de acompanhar corridas. São Silvestre, Meia Maratona do Rio e Volta da Pampulha tinham espaço garantido na televisão de casa. O esforço, a luta contra o tempo e o corpo e o cansaço e os concorrentes, a ânsia incontrolável por cruzar a fita embaixo de um relógio digital marcando o tempo.

No meu caso, essa é a atividade física que também combina para o equilíbrio da saúde mental. Vou quando quero e no percurso escolhido que eu quero, deixando as ansiedades e as depressões irem embora com o suor. Assuntos desconfortáveis, traumas e gatilhos aparecem e desaparecem rapidamente. Para quem trabalha em casa, não dá para esquecer dos benefícios também para a coluna lombar, maltratada por oito ou mais horas na frente de um notebook, sentado numa cadeira de escritório.

No livro Do Que Eu Falo Quando Falo de Corrida, cuja tradução saiu no Brasil em 2010, o japonês Haruki Murakami traça um paralelo interessante entre correr e escrever romances. No distante 1982, ele vendeu seu bar de jazz em Tóquio para se dedicar de corpo e alma à escrita. Um ano depois, emulou Fidípides e continuou a vida de corredor de longas distâncias. Julgado como chato por muitos sedentários, esse esporte teve forte influência em sua carreira. Bem-humorada e sensível, a obra entrega uma sensação semelhante àquela proporcionada pelo as corridas.

Já em Correr, publicado em 2015 e escrito pelo Dráuzio Varella, conhecemos sua história de renúncia ao sedentarismo, seguido dos primeiros treinos, preparação, viagem e disputa de maratonas. Disputa talvez não seja a palavra adequada, já que a competição era contra ele próprio. Você sabia, leitor, que seus mamilos sangram caso não coloque esparadrapos ao percorrer 42,195 quilômetros à moda Fidípides?

Nunca percorri distâncias tão longas assim. Meu recorde é de 10 quilômetros. Duas ou três vezes por semana, corro meus seis quilômetros sem forçar tanto. Questões de saúde: emagreço rápido e descontroladamente, preciso ir “na manha”, como dizem os antigos, se não quiser ser arrastado pelo mais suave dos ventos.

Outro dia, me questionaram sobre a velocidade aparentemente baixa no percurso. Eu só trotava, me acusaram. Até o carrinho do pipoqueiro estaria mais rápido, veio a galhofa. Quando se começa a correr na rua, é importante manter o ritmo para distâncias razoáveis. Sou péssimo em tiros curtos e mesmo os seis quilômetros exigem constância. Se você se sentiu quebrado e abandonou as corridas depois do primeiro dia, é muito possível que tenha exigido demais dos músculos, impondo um ritmo rápido demais para iniciantes. Há um fundo de verdade na máxima do devagar e sempre. A velocidade da corrida de rua não é a dos 100 metros rasos, das arrancadas do centroavante entre a intermediária e o gol vizinho, do esforço de tenistas para alcançar a bola no canto da quadra. Não há perna que aguente.

Talvez por isso eu ache estranho o verbo maratonar. Me parece que as séries consumidas de uma só vez sejam como os tiros curtos em distâncias curtíssimas. 100 metros rasos e fim de prova, menos de dez segundos. Mal dá para respirar. Mal começou, já acabou. Rápido, num estalar de dedos. Bem diferente das maratonas.

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Tenho cuidado com minha alimentação. Não que eu siga uma dieta recomendada por nutricionistas, longe disso. Mas não sou de comer “besteiras”. Nem sou chegado em fast foods. Há uma frase antiga sobre as coisas conquistadas com facilidade: “vem fácil, vai fácil”. Apesar do tom moralista, há um fundo de verdade. Meu estômago e intestinos concordam plenamente quando o assunto é a comida industrializada chegando sem pedir licença e indo embora sem se preocupar com despedidas lentas.

E entendo perfeitamente que sou privilegiado. Conheço gente com rotinas malucas, que impedem maiores cuidados com o que é ingerido. Quanto mais rápida a inconveniente tarefa de comer, melhor. Acelera a produtividade e condiz mais com esses nossos tempos. Marcamos na lista, fazemos um xis na planilha de atividades diárias, obrigatórias, esquecíveis e chatas.

Como os áudios em velocidade acelerada, ouvidos com mais rapidez; ou os vídeos de nossos produtores conteúdos preferidos, que assistimos com pressa para assistir mais e mais, mesmo que isso diminua qualquer absorção – há poucos nutrientes para absorver; ou as fotos seguidas da angústia pelas poucas curtidas depois de dez minutos; ou a indignação com o assunto polêmico do dia, sobre o qual damos nossa opinião, condenamos este ou aquele infeliz e esquecemos tudo após 24 horas, quando a treta passa a ser outra; ou as conclusões tiradas sobre notícias polêmicas sem ler nada além do título; ou a excessiva criação de eventos para expor ao mundo nossas banalidades cotidianas: ficadas, relacionamentos, casórios, ultrassonografias, exames de DNA, exercícios na academia, recebidos do dia, chá disso e chá daquilo. Quando tudo é festa, nada é festa. Quando tudo é urgente, nada é urgente.

Sou um ser do meu tempo e não foram poucas as vezes que maratonei uma série, um podcast, uma trilogia de filmes ou uma coletânea de livros. Quando isso acontece, penso nos dias em que estou muito tempo sem correr por questões práticas do cotidiano ou problemas de agenda. Nos primeiros passos, preciso lembrar da falta de ritmo para acelerar no tempo certo, sem precipitações. Caso contrário, são fortes as chances de um cansaço extremo baixar em mim no meio do caminho, me obrigando a interromper os exercícios bem antes do previsto.

Ninguém quer cair morto de exaustão, como Fidípides. Correr exige a persistência de começar e recomeçar, acelerar e diminuir, inspirar e expirar, controlar o corpo, não se inclinar para não forçar joelhos e canelas, pisar com precisão para não forçar o calcanhar, calçar um bom tênis para não acabar com as solas dos pés, não girar demais o tronco para não sobrecarregar os quadris, nem esticar tanto a passada e se deixar levar pela falsa sensação de chegar logo ao destino.

Maratonar tem pouco a ver com maratonas. Parece mais com os tiros curtos, imediatos, de pouca distância. Lembra os lanches de fast food: de vez em quando, bem de vez em quando, até satisfaz o apetite. Mas o ideal é mastigar direito e saborear sem pressa. É como respeitar o próprio corpo e seus limites para chegar mais longe. Com o perdão do clichê, a maratona de verdade tem pouco a ver com a chegada, mas muito a ver com o percurso. E as corridas de rua têm muito a nos ensinar.

Confira os outros textos da coluna Cinefilia Crônica

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